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Noções do monumento na arte contemporânea

colecao machu picchu 

A escolha dos monumentos com ponto de partida para esta pesquisa se deve à abundância de arquivos encontrados na internet que referem-se a este assunto. Os lugares turísticos, na maioria das vezes, estão relacionados a monumentos tradicionais e naturais. No sentido atribuído por Le Goff (1924-), os monumentos tradicionais são documentos de uma época que  preservam a memória e são carregados de conteúdos simbólicos. Eles representam a cultura, a história e as conquistas de uma civilização, evidenciando o poder de uma sociedade sobre a outra. (Le Goff, 1994: 544).

Nos anos 60, os artistas passaram a se interessar pela desconstrução e desintegração do objeto em favor de algo não permanente, questionando, inclusive, a obsolescência dos monumentos tradicionais. Com isso, buscaram novas formas de fazer arte e de mostrá-la criando antimonumentos. A ordem era negar toda e qualquer instituição que representasse um lugar de legitimação e, consequentemente, de poder. (Freire, 1997: 95) Nesta época Robert Smithson (1938-1973) publicou o texto Entropia e os Novos Monumentos[1] (1966). Nele, o artista descreve um novo tipo de monumento que existe apenas no presente, ou seja, é construído e destruído, possui um caráter transitório previsto como parte fundamental da obra de arte e a documentação não eram parte deste processo. Em 1967, Robert Smithson documentou os ambientes públicos tais quais os encontrava e os intitulou de Monuments of Paissac[2]. Diferentes dos monumentos tradicionais, esses eram lugares banais como escoradouros, pontes e fachadas de indústrias de Nova Jersey. Com isso, ele registrou os diferentes ritmos de mutação da cidade sob uma nova perspectiva, defendendo-os como sendo uma série de monumentos à cultura e à civilização do século XX. Nessa época, a cidade de Nova Iorque foi invadida por uma série de novas construções, surgiram novos viadutos, arranha-céus, conjuntos habitacionais, vias expressas. Essa situação evidencia o que Smithson denomina de “entropia e os novos monumentos”. Para Smithson, eles fazem parte de um passado desintegrado e não caminham para um futuro, são intervalos no tempo. Situam-se no presente objetivo.

Neste contexto, cabe analisar quais seriam os novos monumentos hoje, e em que medida a popularização de equipamentos de captação e distribuição de imagens portáteis evidencia o surgimentos de documentos e monumentos, que por natureza, são transitórios. Em tempos de internet, redes sociais, microblogs e reality shows esta noção de monumento também  reforça o poder  à medida que a popularidade aumenta (acesso, upload, download), como também potencializa o aparecimento de novos monumentos.

colecao torre eiffel

Susan Sontag que analisa o perfil do turista a partir das relações de pertencimento e poder que o homem estabelece com o mundo, afirma que “colecionar fotos é colecionar o mundo” (Sontag,1977:13-5).  A autora cita o filme Les Carabiniers, de 1963, de Jean-Luc Godard. Nele, dois camponeses são convocados a ir à guerra e, quando retornam, depois de terem perdido as batalhas, afirmam que conquistaram o mundo. Eles comprovam tais conquistas ao trazer uma mala repleta de fotografias e cartões-postais de monumentos, lojas de departamentos, animais, maravilhas da natureza, meios de transporte, obras de arte e outros tesouros que encontraram pelo mundo[5]. Para Sontag, as experiências dos personagens de Godard remetem à noção de que, em Les Carabiniers, fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. Quando alguém se retrata junto aos monumentos, isso significa estabelecer consigo mesmo uma relação com o mundo, semelhante ao conhecimento e, portanto, ao poder.

[texto elaborado durante processo de criação das obras Subindo a Torre Eiffel e Monumento Online, 2009. Imagens da série Monumento-online Machu Picchu e Torre Eiffel]